Jovens arquitectos trabalham com mulheres mexicanas

Categorias: Arquitetura

A vontade de ajudar populações carenciadas, aliada à preocupação de como gerimos os recursos do planeta, levou a que dois jovens ateliers de arquitectura – blaanc borderless architecture e CaeiroCapurso – se unissem para criar uma associação que pudesse contribuir para estas causas.

Assim surgiu a Associação Adobe for Women, cujo objectivo é a recuperação e ensino de técnicas de construção vernacular, ao mesmo tempo que ajuda mulheres necessitadas, por entender que estas são muitas vezes o verdadeiro pilar das famílias, criando os seus filhos apesar das enormes adversidades que enfrentam. O primeiro projecto proposto, foi inspirado no trabalho do arquitecto mexicano Juan José Santibañez, que há 20 anos ajudou mulheres em condições difíceis a construírem as suas próprias casas. Assim, passadas duas décadas, a associação tem prevista a edificação de 20 casas sustentáveis naquele país, no povoado de San Juan Mixtepec, no estado de Oaxaca.

 

Apesar da sua história ainda recente e dos poucos recursos disponíveis, o empenho e dedicação das mulheres a quem se destina esta primeira iniciativa, permitiu que a construção de 8 casas já tenha começado. As mulheres contribuem com o seu trabalho no processo de construção, concretizando assim o sonho de uma vida – ter uma casa a que possam chamar sua.

 

Para a Adobe for Women, é hora de angariar ajuda. Cada casa custa apenas 3.830,84 euros, e todas as contribuições são bem-vindas! www.adobeforwomen.pt

 

DESCRIÇÃO DO PROJECTO ADOBE FOR WOMEN

 

CONTEXTO

Pretende-se desenvolver o primeiro projecto da Associação Adobe for Women em Oaxaca, no Município de San Juan Mixtepec, no México. Há muito que este país enfrenta o fenómeno migratório de uma grande percentagem da população masculina, na esperança de melhor sustento, sendo no entanto poucos os que regressam. Isto vem agravar ainda mais a já frágil situação das mulheres, abandonadas pelos seus maridos, criando os filhos com enormes dificuldades, e sem acesso a cuidados de saúde e de habitação.

Ao participar neste projecto, estas mulheres estão, a pouco e pouco, a conseguir mudar o destino das suas próprias vidas.

 

O PROJECTO:

A casa, de planta simples e rectangular, é formada por dois núcleos: um privado e um público. Cada um formado por dois arcos que se encontram ao centro, aumentando assim a noção de espaço e demarcando as actividades que se desenvolvem em cada área. Isto permite espaços amplos apesar da reduzida área total.

O alpendre apresenta-se como um prolongamento da casa, estando directamente ligado à cozinha. É suportado por uma estrutura de madeira revestida por caninha, disposta espaçadamente de modo a tornar as paredes translúcidas. O alpendre abre-se assim para a natureza vibrante envolvente, constituindo um espaço privilegiado de convívio.

A construção, de um só piso, é composta por espaços modulares que se adequam às dimensões dos materiais disponíveis, optimizando assim os recursos humanos e materiais. Os módulos permitem ainda uma maior resistência sísmica visto que as paredes se interceptam a cada 2,4m.

A casa poderá ter variações, por exemplo no número de quartos ou na cor a aplicar nas portas, de acordo com as necessidades e preferências dos seus habitantes, criando assim um conjunto mais diversificado e personalizado.

A variedade de texturas presentes nos adobes, caninha e telhas, contribuem para tornar o conjunto mais rico e harmonioso.

Por sua vez, ao separar a estrutura dos revestimentos através do uso de “conexões secas”, facilita-se a possibilidade de se substituir, reparar ou aumentar a casa, tornando-a flexível.

 

VANTAGENS DO PROJECTO

Económica: Optimização de recursos Ecológica: Materiais regionais e biodegradáveis Social: Fortalece o trabalho comunitário.

Estrutural: Todas as paredes são estruturais.

Cultural: Integra-se com as casas tradicionais e fomenta o conhecimento regional.

 

EFICIÊNCIA ENERGÉTICA

Os materiais locais e a composição arquitectónica, associadas a soluções low-tech, permitem tornar esta casa num modelo de sustentabilidade e eficiência energética.

 

Energia Solar

De modo a aproveitar-se ao máximo a energia solar, pequenos painéis solares irão ser instalados para converter a energia da luz do Sol em energia eléctrica.

 

Águas

Através de um depósito de água, será possível recolher as águas da chuva provenientes do telhado, e reutilizá-la para fins de rega, cozinha e banhos. Assim, diminui-se a dependência dos fornecimentos externos de água.

 

Banho Seco

O “banho seco” é um sistema que se utiliza nas instalações sanitárias onde, em vez de se utilizar descargas ou sistema de esgotos, se armazena fezes e urina, transformando-as num produto para nutrir o solo. É chamado seco porque não utiliza água, não a desperdiça e evita contaminá-la.

 

Compostagem

A compostagem é um processo biológico em que os microrganismos transformam a matéria orgânica, como estrume, folhas, papel e restos de comida, num material semelhante ao solo a que se chama composto. Além de aproveitar uma parte do lixo habitacional, o composto melhora a estrutura do solo, e actua como adubo.

 

Estufa Lorena

Estufa Lorena é um fogão artesanal energeticamente eficiente que utiliza menos madeira para cozinhar que os típicos fogões a lenha. Basicamente consiste numa caixa fechada de lama e areia com uma chaminé. A lenha é colocada no interior da caixa, e através do fumo a comida é aquecida. Este sistema permite reduzir o consumo de lenha até 60% e melhorar a qualidade do ar interior da cozinha.

 

Este é o primeiro passo num longo caminho. Mas a confiança e a alegria de ver como a arquitectura pode contribuir para melhorar a vida destas pessoas, vale com certeza todo o esforço do mundo.

 

 

DUPLA DE JOVENS ATELIERS FUNDAM ASSOCIAÇÃO ADOBE FOR WOMEN

 

“Com pouca ajuda, grandes projectos podem ser alcançados.”

Marcela Taboada, Fotógrafa do projecto Mujeres de Arcilla nos anos 90

Há 20 anos, o arquitecto mexicano Juan José Santibañez, ajudou 20 mulheres pobres a construírem as suas próprias casas.

 

Concebeu os desenhos, ajudou-as nos trabalhos e o resultado foi um sucesso.

Seguindo a inspiração e o conhecimento transmitido por este arquitecto, a blaanc e o atelier CaeiroCapurso quiseram relançar este projecto e tentar levá-lo ainda mais longe.

 

Assim surgiu a Associação Adobe for Women.

Esta associação tem como objectivo contribuir para uma utilização mais humana e sustentável dos recursos do planeta, ao mesmo tempo que recupera técnicas de construção tradicionais e o uso de materiais locais como a terra e os tijolos de adobe.

 

Duas décadas depois da intervenção de Santibañez no México, a Associação Adobe for Women procura de novo intervir neste lugar do mundo, onde a falta de condições de habitabilidade é um grave problema.

 

O primeiro objectivo da associação é ajudar a construir 20 casas sustentáveis no povoado indígena de San Juan Mixtepec, no estado de Oaxaca. Estas destinam-se a 20 mulheres em circunstâncias difíceis, que participam com o seu trabalho no processo de construção. Desta forma, apropriam-se pouco a pouco da sua futura morada e reencontram a auto-estima, a capacidade de trabalho e a esperança que lhes permitirão transformá-las em espaços seguros e carinhosos para as suas famílias.

 

As casas são eficientes energeticamente e construídas com materiais locais, como adobe e bambu.

Cada habitação custa apenas 3 830,84 euros (o preço de meio metro quadrado de um apartamento em Paris ou Amsterdão, um metro quadrado nas capitais bálticas e dois metros quadrados nas cidades europeias mais económicas).

Para estas 20 mulheres com escassos recursos económicos, ter uma casa própria representa realizar um sonho de toda uma vida.

 

WORK IN PROGRESS

A construção da primeira casa começou em Março deste ano, enchendo de entusiasmo as mulheres que participam no projecto. Com o seu empenho e determinação, produziram até agora mais de 40.000 adobes com terra das áreas envolventes.

 

Oito casas estão já lançadas e algumas delas têm as paredes quase prontas.

Tudo isto graças também à generosidade e ajuda de muitos voluntários. O grupo “Casa Tierra”, bem como estudantes de várias faculdades de Arquitectura da Cidade de Oaxaca, participaram num atelier prático de Construção em Adobe, ajudando a erguer as casas de Flavia, Elena e Viviana.

 

Por sua vez, estudantes do Mestrado Internacional “Sustainable Emergency Architecture”, (Barcelona), em cooperação com Architecture for Humanity, vieram também contribuir com o seu trabalho.

Os arquitectos fundadores acreditam que este é o primeiro de muitos projectos que poderão vir a melhorar as condições de vida de pessoas pelo mundo inteiro. Como associação portuguesa sonham um dia poder vir a implementar este projecto ou outro semelhante em países de língua portuguesa, em muitos dos quais existem necessidades idênticas e onde são precisas casas dignas de se chamarem casas.

 

SOBRE OS FUNDADORES:

A blaanc borderless architecture é constituída por quatro jovens arquitectas – Ana Morgado, Lara Camilla Pinho, Carmo Sousa Macedo Caldeira e Maria da Paz Sequeira Braga e foi fundada em 2008. Tem vindo a desenvolver projectos em Portugal, no Brasil e no México e um dos seus principais objectivos é trabalhar em arquitectura sustentável, com uma especial preocupação em contribuir para a melhoria das condições de habitação. www.blaanc.com

 

CaeiroCapurso é constituído pela dupla de arquitectos, João Caeiro (PT) e Fulvio Capurso (IT) que vivem actualmente em Oaxaca, no México. Dedicam-se especialmente ao trabalho e formação junto das comunidades rurais, tendo vindo a desenvolver projectos sustentáveis e pesquisa direccionada para a construção com materiais locais, especializando-se em terra e em bambu. Organizam Workshops de Projecto e Construção na Faculdade de Arquitectura da Universidade Autónoma Benito Juarez de Oaxaca. São docentes das disciplinas de Desenho Artístico e Geometria na Faculdade de Belas Artes. http://berootstudio.wordpress.com/

 

Juan Jose Santibañez

Nascido no México em 1958, este arquitecto acompanhou entre os anos 1988 e 1996 diversos trabalhos da Diocese de Huajuapan, o que lhe permitiu conhecer profundamente a região e desenvolver várias soluções adaptadas ao contexto local. 20 anos depois de ter ajudado um grupo de mulheres carenciadas na edificação das suas casas, o arquitecto juntou-se aos ateliers blaanc e CaeiroCapurso, partilhando a sua experiência e conhecimento, dando início a um ciclo que se pretende intemporal e contínuo.

yelauisanti@hotmail.com

Galeria
noticias RELACIONADOS
PUBLICIDADE