Casa em Ovar

Categorias: Unifamiliar

A recuperação da casa localizada na Rua Dr. José Falcão, visou introduzir uma série de mais valias que possibilitassem a sua plena utilização, de forma completamente atual e conforme as pretensões específicas de um agregado familiar que recentemente adquiriu o imóvel.

 

Assim, após constatação de que as construções existentes, longe de formar um conjunto plenamente coerente, apresentavam alguns indícios de tratamento diferenciado e estados de conservação bastante díspares entre si, concluiu-se facilmente o que salvar e o que destruir, muito embora se perceba que, em último caso, a intervenção tem que garantir uma lógica própria, resultado que transpareça coerência e simultaneamente naturalidade que lhe dê carácter – não se defendeu aqui uma intervenção espartilhada, que mesmo que garantisse uma imagem ou um conjunto de imagens facilmente legíveis não introduzisse um grau de profundidade e densidade como deve caracterizar a arquitetura.

A habitação localiza-se numa artéria estruturante da cidade de Ovar e a implantação, fronteira à rua de acesso, encostada às construções adjacentes, permite a repetição de um modelo urbanístico de matriz frequente, que permite uma ocupação periférica dos quarteirões e liberta o seu interior, para uso maioritariamente destinado aos logradouros individuais, como aqui acontece.
Neste cenário, quer a construção de apoio quer a habitação propriamente dita, apresentam uma lógica de implantação suportada por dois alçados principais, o da rua e o do logradouro, que estabelecem relações de certa forma diferenciadas, mais representativas/formais no alçado voltado à rua e mais descomprometidas no alçado interior, privado.
Para além disso, as construções acusam de forma evidente a sua função, permitindo uma leitura hierarquizada, mantendo uma relação mais trivial na forma como a construção de apoio se constrói e apresentando uma arquitectura construtivamente mais rica para a habitação, nomeadamente os espaços nobres de uso mais permanente.
Não só os materiais, a riqueza da construção e a própria escala dos espaços se distinguem entre si, garantindo uma maior espacialidade para os espaços mais nobres e relegando para os espaços de apoio as escalas mais contidas.
Neste sentido, a intervencão vem propor uma revalorização destes princípios de actuação, introduzindo uma lógica de continuidade e não de ruptura.
Relativamente às áreas de ocupação, é proposta a manutenção das áreas de implantação existentes, havendo exclusivamente uma regularização do anexo existente que mantém a mesma área de implantação mas é reconstruído, tendo em conta o seu avançado estado de degradação.
Assim, ao volume principal, destinam-se os espaços de uso social e de maior permanência, permitindo tirar partido das áreas dos compartimentos e tentar adequá-las às funções mais propícias para as mesmas. Complementarmente, no volume secundário, propõe-se a localização do espaço de garagem voltado para a rua e da área de uso privado da habitação, voltada para o interior do logradouro.
Finalmente, no anexo entretanto redesenhado, propõe-se a localização de espaços de apoio, essencialmente arrumos e lavandaria.
Quanto ao piso do sótão do volume principal da habitação, a proposta prevê a manutenção deste espaço como um espaço polivalente de apoio e uso genérico, apesar de se introduzir um novo acesso vertical, uma instalação sanitária de apoio e iluminação natural através de 3 mansardas.
A proposta acusa o peso da riqueza patrimonial existente, e, de forma consciente, tenta incorporá-la como válida na solução atual, evitando a musealização mas negando igualmente uma postura mais radical de apagar todos os vestígios de um passado apesar de tudo relativamente presente e válido para a utilização da casa, de forma atual.
Materialmente, o objetivo foi manter dentro do possível a lógica construtiva da habitação existente, garantindo que os novos elementos introduzidos não causassem perturbações significativas na leitura dos espaços.
Quanto ao tratamento dos espaços exteriores, o objectivo foi o de introduzir uma leitura mais unitária ao espaço, garantindo um perímetro com tratamento vegetal mais envolvente, através da introdução de uma sebe e permitindo um miolo menos preenchido, mais disponível para uma utilização menos regrada/comprometida e mais polivalente.
Finalmente, em termos de alterações substancialmente visíveis nos alçados das construções, no piso térreo, ao nível do espaço de apoio, previu-se a introdução de uma abertura quase total para a rua, permitindo a utilização do respetivo espaço interior como garagem, e, contrariamente, uma abertura mais controlada dos dois quartos para o logradouro – os alçados são por isso praticamente refeitos, tendo como princípio a introdução de vãos que mantêm a escala da construção, proporcionados ao novo programa e respectivos usos, mas reinterpretando de forma moderna o sentido mais decorativista do azulejo, reintroduzido de forma aparente na estampagem do padrão existente na casa em novos elementos, como o portão, os paramentos novos, quer do alçado nascente do volume de apoio quer do anexo entretanto completamente reconstruído.
Previu-se igualmente a materialização diferenciada no que tem a ver com a introdução de novos pontos de luz natural, sendo que se no espaço de apoio se materializa como quase uma extensão da cobertura inclinada, ao nível superior da casa principal temos um conjunto de mirantes, todos construídos em madeira e revestidos por zinco, garantindo uma imagem mais assumidamente desenhada.
A intervenção valida a ideia subjacente à aquisição do imóvel, que permite juntar o melhor de dois tempos distintos – manter um património rico e cada vez mais escasso, que carece de respeito e salvaguarda, introduzir um programa que resolva uma habitação contemporânea e com isso, garantir o prolongamento do tempo de vida das construções, mesmo que intervencionadas com alterações, introduzindo uma reinterpretação sobre o edificado existente e evitando a sua destruição.
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FICHA TÉCNICA

Nome

Casa em Ovar
Localização
Rua Dr. José Falcão, 204, 208, Ovar
Data de Projecto
2015
Data de Construção 
2016/2017
Cliente
Particular
Arquitetura
Nelson Resende, Arquiteto
Arranjos Exteriores
Nelson Resende, Arquiteto
Estruturas
João Almeirante, Engenheiro Civil
Águas, Térmico, Acústico
João Almeirante, Engenheiro Civil
Instalações Eléctricas, Gás
Nuno Leite, Engenheiro Electrotécnico
Construção
António Souto
Fotografia
João Morgado, Fotografia de Arquitectura
Área de construção
216.35 m2
Número de pisos
2 pisos
Galeria
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