Localizada em um bairro bastante arborizado da cidade de São Paulo, a Casa FR — com autoria de Meireles + Pavan Arquitetura — é concebida como um refúgio urbano, onde o diálogo entre arquitetura e natureza acontece de maneira contínua. O projeto parte da sobreposição de três volumes prismáticos, de proporções distintas, cujas fachadas articulam diferentes camadas de proteção — brises, caixilhos e painéis — que filtram a luz, a ventilação e, principalmente, a relação com o entorno.
A entrada da residência se dá por uma galeria linear que atua como zona de transição entre o espaço público e o universo íntimo da casa. Ali, troncos de madeira criam um ritmo vertical suave, envolto por um jardim tropical e um muro verde. A cobertura de concreto aparente, ligeiramente afastada do muro lindeiro, permite a entrada delicada da luz natural, que desenha fendas de claridade ao longo do percurso. No piso, uma intervenção em tons de rosa e azul adiciona uma camada artística ao espaço, reforçando sua atmosfera contemplativa.
A integração com a natureza se revela como diretriz essencial desde o térreo. Os espaços sociais — sala de estar, jantar, varanda e cozinha social — se abrem generosamente para o jardim que contorna a casa, diluindo fronteiras entre interior e exterior. O piso de pedra se estende da área interna até a varanda, promovendo continuidade visual e material. As paredes revestidas com painéis de madeira dialogam com a paleta natural do entorno, enquanto os amplos caixilhos de vidro e brises de madeira permitem controlar a permeabilidade dos ambientes.
Na varanda, a área de convívio com churrasqueira é um convite ao encontro e ao desfrute ao ar livre. A visão se projeta para um muro verde ao fundo, envolto por vegetação tropical, compondo uma moldura viva que amplia o jardim principal. A piscina, com traçado orgânico, rompe com a ortogonalidade da arquitetura e cria um contraponto delicado às linhas retas da volumetria. Revestida com quartzito Vitória Régia — pedra natural brasileira de tonalidade verde vibrante —, a piscina reforça o caráter tropical e sensorial do projeto.
A sala de estar é marcada por uma curadoria precisa de mobiliário moderno e contemporâneo. O sofá DS-600, criado por Ulrich Christian Berger (de Sede), é ladeado pelas poltronas Delfino, de Erberto Carboni (Arflex), e pela poltrona Reversível, de Martin Eisler (Tacchini). As mesas de centro Blast, de Ronald Sasson (Maad Collection), completam a composição. Ao lado da adega, um lounge com poltronas Lina, de Gianfranco Frattini (Tacchini), acolhe rodas de conversa, enquanto a parede ao fundo exibe uma obra site-specific de Bruno Weilemann Belo (Aura Galeria), inspirada nas xilogravuras japonesas Ukiyo-e.
Na sala de jantar, a mesa Tradição, do Studio MK27 (Maad Collection), é acompanhada por cadeiras Softshell, de Ronan & Erwan Bouroullec (Vitra), e pelas icônicas Standard, de Jean Prouvé (Vitra), posicionadas nas cabeceiras. Acima, os pendentes PH Artichoke, de Poul Henningsen (Louis Poulsen), criam uma iluminação suave e escultural. Ao fundo, o buffet suspenso Cosmos, de Renata Correa (Maad Collection), se destaca sobre a parede de filetes de pedra iluminada por luz zenital. Todas as peças são fornecidas pela Micasa Brasil.
A cozinha, com planta trapezoidal, apresenta soluções sob medida. O uso de madeira no forro e marcenaria contrasta com o piso e as bancadas em pedra. A bancada em L segue linhas discretas, integrando ferragens de alta tecnologia. Ao centro, uma bancada de apoio funciona como peça escultórica: uma base triangular sustentada por dois apoios assimétricos — um cilíndrico, outro linear com vértices suavizados — revela um desenho sofisticado em sua simplicidade.
O lavabo, mesmo em menor escala, foi tratado com a mesma atenção ao detalhe. Emoldurado por materiais de tons escuros, possui um grande painel de vidro do piso ao teto, que traz luz natural e conexão com o jardim. A bancada de inox, fixada nas laterais, parece flutuar, acentuando a leveza do espaço.
Nesta casa, a escada é um elemento escultórico que conduz a uma experiência tátil e sensorial. À medida que se percorre o lance, novas perspectivas do espaço se revelam, reforçadas por uma claraboia de forma orgânica que derrama luz natural sobre as superfícies. Essa luz revela texturas de madeira e pedra, destacando as formas e proporções com suavidade ao longo do dia.
No pavimento superior estão localizados os dormitórios, academia, escritório e áreas de apoio. A suíte master é composta por camadas que equilibram transparência, controle solar e acústico: painéis treliçados, cortinas blackout, caixilhos de vidro duplo. Essa estrutura permite ajustar o nível de abertura e contemplação, promovendo um ambiente versátil e sereno. A luz desenha sombras mutáveis ao longo do dia, filtradas pelos brises em constante movimento.
O banheiro master é iluminado por uma claraboia semicircular, que permite uma conexão visual com o céu. As superfícies claras refletem a luz e ampliam o espaço, enquanto materiais naturais como madeira e pedra — aplicados no piso, bancadas e revestimentos — criam uma atmosfera de bem-estar.
No terraço superior, a arquitetura se dissolve no paisagismo. Jardins implantados na laje e canteiros de flores tropicais percorrem a extensão da casa, criando um ambiente de contemplação e relaxamento. A academia se abre para uma varanda elevada à altura da copa das árvores, reforçando a integração sensorial com o entorno. Um lounge externo, com mobiliário assinado por Carlos Motta, convida à convivência sob o abrigo da vegetação.
Vale ressaltar que neste projeto a luz natural não apenas ilumina, mas constrói a espacialidade. Presente em claraboias, aberturas laterais e visores estratégicos, ela atua como matéria, definindo texturas, marcando o tempo e revelando camadas de profundidade e significado.
Na garagem, prismas de vidro leitoso transformam o espaço em uma espécie de galeria para os automóveis. À noite, a iluminação interna desses volumes cria uma ambientação etérea, valorizando o espaço de maneira inesperada.
No subsolo, a discoteca reforça o vínculo entre arquitetura e paisagem. Visores semicirculares emolduram a vista da piscina, e a luz filtrada pela água gera um jogo dinâmico de sombras sobre a parede do bar. O ritmo visual criado por esses elementos cria uma atmosfera gráfica e envolvente, marcada por um design que valoriza a continuidade entre o dentro e o fora.
A Casa FR é, acima de tudo, um projeto onde arquitetura, natureza, arte e funcionalidade coexistem de forma integrada e sensível, reafirmando os valores centrais do Meireles + Pavan Arquitetura: precisão técnica, experiência sensorial e atenção ao detalhe.
Projeta: Casa FR
Localização: Jardins, São Paulo, SP
Área construída: 1.350m²
Ano do projeto: 2021
Ano conclusão da obra: 2024
Projeto de Arquitetura e Interiores: Meireles + Pavan Arquitetura
Arquitetos responsáveis: André Pavan, Bruno Meireles, Rômulo Machado
Projeto de iluminação: Rodrigo Jardim
Projeto de Paisagismo: Rodrigo Oliveira Paisagismo
Engenharia: Fairbanks e Pilnik
Fotos: Fran Parente
Comunicação / Texto: Matheus Pereira Comunicação
Marcenarias: Id Móveis, Ângelo Arte
Acústica: Akkerman Alcoragi Acústica Ideal
Segurança: Protect System
Serralherias especiais em inox: Starinox
Mobiliários: Micasa, Tora Brasil, Etel, Dpot
Esquadrias: Arteal
Revestimento de pisos de madeira: Core
Revestimento de piso em pedra e marmoraria: Galeria della Pietra






































