Concurso projeto municipal de habitação em Carcavelos

A presente estratégia de intervenção tem como princípio basilar o respeito pelas lógicas do património edificado e não edificado existentes no contexto próximo. A valorização da unidade do património edficiado, bem como o reconhecimento da importância do sistema de vistas e relações de acessos viários e pedonais, tem como resultado a proposição de um edifício repartido em duas volumetrias, unificadas por dois pisos em cave, que procuram responder às especificidades próprias do lugar.

Junto da rua da Ilha Graciosa, é proposta uma volumetria longitudinal de 5 pisos que contém as tipologias de apartamento simples, familiar e familiar + (A), e que segue o alinhamento definido pelos blocos edificados já existentes, colmatando a frente da referida rua, ao mesmo tempo que serve de charneira entre a vasta área de vinha a nascente e o espaço colectivo central da Quinta da Bela Vista a poente.

No eixo central deste amplo espaço colectivo, propõe-se a implantação de uma volumetria de 5 pisos, que corresponde aos alojamentos para estudantes (B). Esta volumetria serve de remate ao referido espaço, definindo-o a norte, ao mesmo tempo que assegura a criação de canais visuais e físicos controlados, que mediam a relação com os espaços envolventes, lógica que é uma das principais características da lógica de implantação do edificado existente. Procura-se ainda com este volume definir uma frente edificada para a rua da Ilha do Pico, a norte da área de intervenção, onde a sucessão de topos e cunhais dos diferentes edificios definem um ritmo de massa e espaço, que marca a transição entre diferentes tipologias de espaço público.

Esta lógica de implantação volumétrica beneficía do posicionamento altimétrico proeminente, marcando o topo da urbanização Quinta da Bela Vista com duas volumetrias que se abrem sobre a paisagem e definem um novo espaço ajardinado que serve de elemento de continuidade entre o vasto espaço central que se estende para sul e as ruas da Ilha Graciosa e Ilha do Pico. Aqui, procura-se desenhar um espaço público em plena harmonia física e visual com a envolvente, formando novos percursos e colmatando os existentes.

A proposta tira partido da posição altimétrica da área da intervenção e da topografia existente, sendo proposto um combro, formado pelo aproveitamento de terras resultantes das escavações inerentes à construção dos edifícios novos edifícios, formando-se um miradouro, à cota 60,00, que oferece vistas privilegiadas sobre as vinhas a norte e nascente, e o mar a sul, permitindo criar uma protecção a nível visual e dos próprios ventos para o novo conjunto edificado, para o jardim interior e para os novos percursos públicos e de acesso aos edifícios.

É definida uma praça a norte, que funciona como elemento de recepção e transição entre a rua, a baía de estacionamento e o acesso aos edifícios e jardim. Esta relação é pontuada por um filtro de vegetação arbórea,instalada em caldeiras circulares, que media esta relação entre o espaço canal e a praça, minimizando a percepção da circulação automóvel, e permitindo ainda a recepção de veículos de mobilidade leve, como bicicletas e trotinetas, através de equipamentos de parqueamento localizados junto ao acesso do edifício B.

São propostos percursos que relacionam e modelam o terreno, de forma a garantir a relação física e visual entre os novos elementos e os existentes. Entre a grande praça circular a sul e a nova praça a norte, é criado um percurso que contorna o combro a nascente, interligando com o percurso de acesso ao miradouro, relacionando-se assim três espaços públicos notáveis, e estabelecendo uma relação visual com a vinha, mar e edificado. Pretende-se que este percurso actue como uma “promenade”, que proporciona uma percepção contextual que enriqueça a mera função conectora, oferecendo vistas que vão do enquadramento específico, à grande panorâmica urbana.

A partir da praça a norte, é criado um percurso de acesso que conectam os três entradas poentes do edifício A, e que tem continuidade através de um percurso secundário em poldras de betão, que contorna o combro pelo lado nascente, interligando directamente os acessos do edifício com o espaço central que se estende para sul. Tirando partido da pendente gerada entre os diferentes percursos, são propostos dois equipamentos infantis, escorregas metálicos encaixados no solo, que têm como remate duas caixas de areia, tornando este lado sudeste do combro numa área de recreio que oferece uma nova experiência e enriquece a vivência deste amplo espaço central.

A partir da rua da Ilha Graciosa, o edifício A conta com três acessos pedonais, tirando-se partido do caimento para sul do referido arruamento para a colocação do acesso à garagem de dois pisos em cave que unifica o edifício A e B. Nesta frente nascente,são propostas ainda baias de estacionamento automóvel e equipamentos de parqueamento de veículos de mobilidade leve, servindo de apoio ao edificado, e relacionando-se com o arruamento que define o limite do polígono urbanizado da Quita da Bela Vista.

De forma a regular a privacidade dos fogos do piso térreo, são propostas áreas de plantação de plantas arbustivas, aromáticas e arbóreas, que se distribuem na periferia de ambos os edifícios, e que conjuntamente com a modelação de terreno proposta, actuam como mediadores da relação entre o espaço privado e as diferentes tipologias de espaço público, bem como consubstanciam uma barreira sazonal que possibilita a mediação da exposição solar para os alojamentos situados na base dos edifícios.

Com a modelação topográfica e configuração de tipologias de espaço público propostas, procura-se a criação de um sistema sustentável, de aproveitamento de recursos e de baixa manutenção, que se relacione com os valores próprios do ecossistema do lugar e da região.

Tendo em conta a região climática, um dos principais objectivos da intervenção paisagista é o aumento do tempo de permanência das águas pluviais sobre zonas verdes. Assim, são propostos mecanismos que permitam a retenção de água por períodos de tempo mais alargados, como é o caso das duas bacias de retenção propostas, e que permitem a recolha de águas de zonas mais altas, bem como a fixação de vegetação palustre e fito-depuradora, ou a redução da velocidade de escoamento de águas pluviais, privilegiando-se a descarga das águas das zonas pavimentadas pedonais para as zonas de coberto vegetal.

A estrutura arbórea proposta será o nível mais predominante, criando sombras, protecção visual e física, bem como enquadrará e marcará os pontos de acesso aos edifícios. A estrutura arbustiva será utilizada de forma pontual para a minimização da presença de estruturas exteriores como armários ou caixas, estando associada ao estrato arbóreo, criando sebes mistas de protecção visual e ventos. A estrutura subarbustiva e herbácea ocupará grande parte dos espaços de coberto vegetal, reduzindo a necessidade de manutenção a longo prazo e o consumo de água, privilegiando-se neste estrato a diversidade florística e variação cromática sazonal, enquadrando e protegendo os espaços de paragem e estadia.

As espécies autóctones e alóctones a utilizar, serão também ponderadas em função da sua posição altimétrica no terreno e das suas necessidades de rega, sendo dada prioridade às especies que tenham demonstrado uma boa adequação ao clima da região e às condições de plantação a criar.

Propõe-se ainda a reconfiguração da estrutura de coberto vegetal do jardim a sul, de forma a reforçar a protecção desta área colectiva central, e a proporcionar uma amplificação das perspectivas panorâmicas do novo jardim sobre a vinha e sobre o mar.

A proposta de espaço público tem como objectivo o enquadramento e a mediação da relação do espaço colectivo com o espaço privado, sendo o coberto vegetal é elemento fundamental para o enquadramento de vistas, marcação de acessos e protecção dos alojamentos, assegurando a criação de um microclima que potencie a utilização do espaço público, criando um enquadramento favorável para a construção de um espaço privado qualificado

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FICHA TÉCNICA

Projeto
Habitação em Carcavelos

Tipo
Concurso

Localização
Carcavelos , Cascais, Portugal

Equipa de projeto

Arquitetura
SOLO ATELIER

Autores
Sérgio Santos Cruz
Fábio Silva Santos

Arquitectura Paisagista
AtelierBBV

Autores
Luís Guedes de Carvalho

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