O Chalé das Três Esquinas

Categorias: Unifamiliar

PRÉMIOS
Vencedor de Bronze no American Architecture Prize 2016
Vencedor nos Architizer A+ Awards 2015
Vencedor no Building of The Year Awards 2014
Menção Honrosa Prémio IHRU 2014
Seleccionado para o Prémio Nacional de Arquitectura em Madeira 2015
Nomeado para o Prémio Nacional de Reabilitação Urbana 2014
Nomeado para os Prémios Construir 2014
Nomeado para os Prémios Reabilitação na Construção 2014

O “Chalé das Três Esquinas” é um edifício único, documentando a história e a diáspora da região onde se insere e combinando a arquitectura e o desenho urbano portugueses do século XIX com uma inesperada influência alpina. Esta influência chega ao país por via de uma vaga histórica de portugueses regressados do Brasil, influenciados pela cultura centro-europeia, dominante no contexto da segunda revolução industrial brasileira.

Concebido como um anexo ao pequeno palácio a que encosta, e situado no coração das muralhas romanas e medievais de Braga, este é um edifício particularmente ensolarado, com duas frentes, uma voltada para a rua e para Oeste e outra voltada para um agradável e valorizado pátio de interior de quarteirão a Este, desfrutando de luz natural ao longo de todo o dia.

A identidade do edifício, no entanto, perdeu-se em 120 anos de pequenas intervenções não qualificadas, resultando numa sobre-compartimentação que o encerrou para a rua e para a luz.

A sua fachada foi igualmente adulterada: caixilharia moderna em alumínio e caixas de estore exteriores modificaram a estereotomia dos vãos, a escala do edifício e dos seus detalhes, rompendo com a leitura original da rua.

O objectivo do projecto foi, assim, clarificar os espaços e funções do edifício recuperando a imagem, as técnicas construtivas e o programa (essencialmente habitacional) originais e, simultaneamente, adequando-o às formas de viver contemporâneas, devolvendo-o à cidade e, potencialmente, alicerçando um modelo para intervenções de reabilitação futuras no bairro da Sé.

Seguindo essa estratégia, a glória inicial da fachada foi recuperada: a caixilharia original, em madeira, foi recolocada, e o minucioso beirado decorado restaurado.

No interior recuperou-se a distribuição espacial e funcional originais, preservaram-se as escadas, o soalho, assim como a estrutura da cobertura, foi refeito sobre a estrutura existente em madeira e introduziu-se mármore de Estremoz no rés-do-chão e em todas as superfícies a impermeabilizar.

O programa pedia a convivência entre um espaço de trabalho e um programa de habitação.

Tirando partido de uma diferença de cotas de 1,5 m entre a rua e o interior do quarteirão foi possível colocar o espaço de trabalho no piso térreo, beneficiando da relação com a rua e banhando-se com a luz do entardecer.

O programa doméstico relaciona-se com a praça do interior do quarteirão e a luz de Nascente. A praça interior é pontuada por várias laranjeiras, providenciando uma deliciosa sobra durante o verão e apresentando um animado espectáculo no inverno, cobertas de laranjas.

Dada a reduzida área de implantação do edifício, seguiu-se a estratégia original de hierarquizar as áreas por pisos. A escada estreita-se a cada lance, comunicando a mudança de natureza dos espaços a que dá acesso.

A geometria da caixa de escadas filtra eficazmente a relação visual entre os dois programas deixando, no entanto, que a luz natural dos pisos superiores ilumine o espaço de trabalho.

O primeiro piso reservou-se para as zonas sociais da habitação. Recusando-se a tendência natural para a compartimentação, permitiu-se que a caixa de escadas definisse os perímetros da sala e cozinha, mantendo-se uma planta aberta e iluminada ao longo de todo o dia, com luz de Nascente pela cozinha, zenital pela caixa de escadas e de Poente pela sala.

Subindo os últimos e estreitos lances de escada chega-se à zona de dormir, espaço onde o protagonismo é entregue à cobertura, cujo sistema construtivo é mantido aparente, embora pintado de branco. Do outro lado da caixa de escadas situa-se um quarto de vestir, apoiado por uma instalação sanitária.
O tema visual da casa é a cor branca, sistematicamente repetida nas paredes, tectos, carpintarias e mármore. O quarto de vestir é a surpresa no topo do edifício. Tanto o piso como o sistema construtivo da cobertura apresentam-se na sua cor natural as portas dos armários que constituem todo o seu perímetro são construídas no mesmo material. O quarto de vestir apresenta-se, assim, como uma pequena caixa de madeira, contrapondo a caixa branca do prédio e sendo contraposta pela pequena caixa de mármore da instalação sanitária.

CITAÇÕES
Tiago do Vale

"Logo durante nossa primeira visita percebemos que o prédio pedia, desesperadamente, duas coisas: primeiro que o libertassem de toda a construção avulsa que o sufocou e que comprometeu a clareza e a lógica com que originalmente organizava os seus espaços; e em seguida (o que, em muitos aspectos, também é um sintoma da mesma maleita) que se permitisse à luz que permeasse os seus espaços. A escuridão acabou por ser a consequência derradeira da compartimentação sistemática a que o prédio foi sujeito. Era preciso maximizar tanto a luz como a transparência para permitir que o edifício respirasse."

"A tipologia original do prédio, tipicamente oitocentista na sua matriz -e tendo também em conta que o prédio foi, desde logo, concebido para um uso flexível- é, por si só, muito permissiva e aberta, capaz de dar resposta a praticamente qualquer tipo de programa de arquitectura.

Portanto nunca nos ocorreu outro caminho senão o de ser fiel à sua natureza original, tanto na arquitectura como nas soluções técnicas, como na organização e distribuição do programa.

Recuperamos não apenas os materiais mas também os usos de cada espaço. E mesmo quando introduzimos materiais novos -como fizemos com o mármore de Estremoz- fizemo-lo com o critério de se ajustar à sua natureza e ao seu contexto histórico."

"Neste caso, o tempo não lhe foi [ao prédio] generoso.

Muitas vezes um arquitecto encontra-se dividido na tentativa de dar resposta aos desafios de uma requalificação, seduzido entre a honestidade conceptual de um restauro cego e estrito e a desonestidade conceptual de se permitir à liberdade de alterar um pouco a narrativa do edifício para permitir que o seu desenho possa ir mais longe num ou noutro aspecto em particular.

Como em tudo, o melhor compromisso está sempre entre os dois extremos, informado por ambos: um restauro estrito e cego pode produzir um objecto arquitectónico interessante e honesto, mas é necessário ceder em algum ponto se queremos que o edifício seja capaz de dar resposta aos requisitos das formas de viver contemporâneas, que são dramaticamente diferentes das de há 120 anos. Essa resposta é, em última análise, a derradeira missão de um edifício (e aquilo que o mantém vivo).

Quando a passagem do tempo é generosa com uma construção, qualifica-a e valoriza-a, acrescentando novas qualidades às originais, anotando o seu percurso no tempo. Ilustra como a forma como nos relacionamos com os espaços onde vivemos muda e evolui incessantemente, o que é enormemente enriquecedor e uma experiência maravilhosa de arquitectura.

Assim, regressando a este caso em particular, tentamos cometer a desonestidade terna de oferecer ao prédio uma história mais feliz, com um percurso mais generoso do que aquele que realmente sofreu. Recuperamos e destacamos as suas interessantíssimas características originais introduzindo, ao mesmo tempo, elementos e ideias capazes de conduzir, passo a passo, esta casa desde a sua fundação até aos dias de hoje, perfeitamente ajustada ao modo de habitar contemporâneo."

"No fundo, a nossa opção foi elementar: restaurar as suas condições originais mas com a subtileza (digo-o assim, embora seja este o ponto mais fundamental do processo) de acrescentar algo para além do restauro cego, capaz de devolver esta casa às sua função, ao uso (vivido com genuína qualidade de vida), à rua, à cidade, e ao tempo de hoje, e fazê-lo dotando-a de flexibilidade suficiente para que se mantenha útil e viva por outros 120 anos.

E, mesmo assim, não é coisa pequena: função, usos, pessoas, ruas, cidades, são coisas que, sem cansaço e sem pedir desculpa, permanentemente vão mudando a forma como se relacionam com a sua envolvente construída.”

TAGS
LINKS
FICHA TÉCNICA

ARQUITECTURA 

Tiago do Vale Arquitectos, Portugal
LOCAL 
Sé, Braga, Portugal
CONSTRUÇÃO 
Constantino & Costa
ANO DE PROJECTO 
2012
ANO DE CONSTRUÇÃO 
 2013
ÁREA DE IMPLANTAÇÃO 
60 m2
ÁREA DE CONSTRUÇÃO 
165 m2
FOTOGRAFIA 
João Morgado
PDFS
Galeria
projetos RELACIONADOS
PUBLICIDADE

Isopan

Apresentamos a Esquadria Perfeita

Registe a sua Empresa

Crie a sua conta gratuitamente e promova os produtos da sua empresa.