Tea House – Ilha de Jeju

Primeiro fizemos a Casa – a Casa de Jeju. Depois foi-nos solicitado projetar uma Tea House. O que é uma Tea House? Foi a nossa primeira questão. Que bom ser arquiteto e sermos confrontados com novos programas, novos desafios. Encontrar solução para algo, estudando, aprendendo.

Como salvaguarda da Casa, o cliente comprou o terreno a poente de modo a ampliar a área de jardim e também construir um espaço onde lhe fosse possível receber convidados sem que a privacidade da Família e da Casa fosse perturbada. Ampliar algo que já está construído e onde todos estão contentes com o resultado, é uma tarefa que pede reflexão.

A Casa já tinha um “anexo” – a casa do caseiro – que está perfeitamente integrada na volumetria, materialidade e funcionalidade. Este novo “anexo” não poderia ter o prejurativo aspeto de anexo. Algo inferior, ao fundo do quintal, de menor qualidade construtiva e – quase sempre – sem preocupações estéticas. Um anexo. As exigências dos Clientes – e as nossas – sempre foram altas.

Usar os mesmos materiais? O mesmo jogo de volumes e volumetria? Parecia-nos difícil pela diferença de programa e vontade dos Clientes. Curiosos – sempre – da arquitetura tradicional – neste caso da arquitetura tradicional coreana – recolhemos informação e visitámos os melhores exemplos, em especial os mais próximos, ali mesmo na Ilha de Jeju. Obras magistrais. Sobretudo as em madeira.

Pareceu-nos que os materiais deveriam ser: pedra e madeira e cobre. Fizemos uma primeira proposta, até para acertarmos o programa e perceber necessidades e expetativas. O sítio deveria ser o mais elevado para dali se deslumbrar o mar e o infinito. O resto seria paisagem de jardim. Localizada ao centro do novo terreno, era necessário fazer ligações. Fáceis, mas de rápida perceção.

O programa é bastante simples. Um espaço amplo de estar onde se possa – com cerimonial – preparar, servir e degustar um precioso chá, mas também – com semelhante cerimonial – abrir uma garrafa e saborear um excelente vinho. Ficámos a perceber que a denominação de Tea House é um pouco mais ampla. Um quarto para repouso, mas também onde uma visita poderia pernoitar com todo o conforto. Um banho, de uso tipicamente coreano, onde é possível a sua utilização total ou parcial.

As divisórias são portas de correr que – copiando e interpretando belos exemplos tradicionais – permitem que o quarto de feche totalmente, parcialmente ou que se abra completamente sobre a paisagem. O banho também. Um jogo de – quase – infinitas possibilidades, permitindo que espaços se transformem e se outras atividades aconteçam. No exterior uma grande varanda a sul – coberta – e um grande terraço a nascente.

Decidido que a Tea House teria o seu contato com o terreno em pedra – pedra quase negra de Jeju, vulcânica – e madeira em toda a sua estrutura, divisões e mobiliário. A impermeabilização ficou garantida por folha de cobre. Mas como a fazer? Na Coreia foi-se perdendo o conhecimento de construir em madeira. Propusemos o desafio de fazer todo o trabalho de construção em oficina em Portugal e enviar tudo prefabricado para posterior montagem in situ. Foi de imediato aceite e um novo desafio nos foi posto.

A madeira escolhida foi Afizélia ou Dossié – afzélia pachyloba. A experiência com a Casa de Chá da Boa Nova – Álvaro Siza 1958-1963 – comprovou as suas qualidades, mesmo em frente ao mar e à agressividade da intempérie. Habituámo-nos que projetar e construir na Coreia é fácil e sobretudo compensador pois a vontade de fazer bem é primordial. Agora era-me possível construir a madeira mesmo ali ao pé do escritório, ao pé de casa.

Serrar, testar, aparelhar, montar, para depois desmontar e em dois contentores enviar para a Coreia. Depois foi necessário enviar quatro carpinteiros portugueses para a montagem. Embora a língua pudesse parecer um obstáculo, a obra de construção civil – betão, infraestruturas, correu sem problemas, pois projetos foram respeitados e tudo corretamente respeitado. Quando a madeira chegou, foi montar num trabalho sincronizado de pré-fabricação, onde a linguagem é consensual e entendível por todos.

Tudo lá está e nada é visível. É habitual nos nossos Projetos e Obras. Todas as Infraestruturas necessárias a um ótimo conforto foram integradas, mas não preponderantes. Existentes, mas ausentes à vista, por  desnecessário, por inestético.

As ligações – pedonais – com a Casa, também deveriam ser algo natural, como se sempre ali estivessem. Uma ligação de serviço mais em cima e outra que desde a entrada da Casa permite um passeio pelo jardim ou ir até à Tea House. Uma “porta” faz a ligação entre a Casa e a Tea House. O jardim – da mesma autoria do jardim da Casa – arquiteta paisagista Seo-Ahn STL Total Landscape – é uma daquelas surpresas que – quase – só acontecem na Coreia pela experiência e conhecimento de muitos séculos. Aconteceu num “abrir e fechar de olhos” e está como se sempre assim foi.

Projetar e construir assim é o sonho de qualquer arquiteto. Pelo menos dos que sonham. A realidade é – habitualmente – bem diferente. Agora já sei o que é uma Tea House e o que lá se pode beber.

Porto-Zurique, 11 de Dezembro de 2021.
Carlos Castanheira

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FICHA TÉCNICA
Projeto
Tea House – Ilha de Jeju
Localização
Jeju, Coreia do Sul
Arquitetura
Álvaro Siza Vieira, Carlos Castanheira, Jong Kyu Kim
Arquitetos Responsáveis
Álvaro Siza, Carlos Castanheira, Jong Kyu Kim
Escritório em Portugal
CC&CB Architects
Coordenadora de Projeto
Diana Vasconcelos
Equipa de Projeto
Adele Pinna, João Figueiredo, Francesca Tiri, Nuno Campos
Escritório na Coreia
M.A.R.U. Metropolitan Architecture Research Unit
Coordenador de Projeto
Jong Kyu Kim
Colaboradores
Min Kim
Estrutura
HDP – Construction And Engineering Projects, Paulo Fidalgo
Instalações Mecânicas
M.A.R.U. Metropolitan Architecture Research Unit
Eletricidade
M.A.R.U. Metropolitan Architecture Research Unit
Construção
Henriques e Rodrigues
Serralharia
NORFER
Fotografias
Park Wansoon

Área

260 m²

Ano

2018

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