Mais espaço público s.f.f.: as cidades pós-covid-19

Mais espaço público s.f.f.: as cidades pós-covid-19 | Artigo de Maria Paula Barreiros

A pandemia destapou as fragilidades do mundo ocidental globalizado. Cidades que crescem para além dos limites e esgotam o planeta não é um modelo sustentável. Os desafios para achatar a curva são muitos, a começar pela forma como usamos as cidades.

O cenário quase distópico criado pela pandemia da covid-19 devolveu três coisas às grandes cidades: ar, luz, espaço. “É quase uma coisa poética, o mal criou um bem”, diz Jorge Figueira, professor de História e Teoria de Arquitectura na Universidade de Coimbra e crítico de arquitectura no PÚBLICO.

O mal não chegou como total surpresa, diz a maioria dos especialistas ouvidos. A actividade humana já estava em guerra aberta com o planeta, atentando contra os ecossistemas. Ainda que de forma insidiosa, a pandemia dá-nos uma lição de humildade.

“A pandemia resultou da desterritorialização, é a manifestação extrema da doença tecnocapitalista que há mais de dois séculos se infiltrou nas sociedades humanas, (…) é o capitalismo global que transforma a Terra inteira, submetendo-a, como um contágio epidémico, ao seu funcionamento”, escreveu em Abril o filósofo José Gil no PÚBLICO.

As mega-cidades densas e poluídas foram as primeiras vítimas do SARS-CoV-2. “Os arquitectos amam as cidades, a densidade”, diz Figueira. É esse modelo de cidade moderna e neoliberal que funcionou até hoje. A cidade “é a mais importante, mais variada e promissora criação cultural da civilização”, escreve o historiador de arte italiano Salvatore Settis num ensaio para La città per l’Uomo ai Tempi del covid-19 (ed. La Nave di Teseo). Mas “cidades vazias têm algo de desumano”, diz também Settis à revista Left.

As cidades são como a democracia, ainda não foi inventado um sistema melhor. Mas o instrumento precisa de afinação.

Direito à cidade

Pouco antes do Maio de 1968, o filósofo francês Henri Lefebvre descreveu a cidade como espaço de comunhão e diversidade e defendeu o “direito à cidade”. Hoje o que significa isso? É na cidade que nos encontramos com o outro, mas a cidade exige agora uma nova coreografia de distanciamento social e passámos a dar um valor inestimável aos passeios largos, às praças amplas, aos jardins ao pé de casa.

Em Portugal, “o direito à cidade” foi usado, sobretudo na segunda década deste século, como slogan para contestar a torrente do turismo e de investimento imobiliário que tomou conta dos centros históricos e levou à deslocação forçada de muitas famílias para a periferia. Por outro lado, numa versão optimista, os habitantes ficaram com o centro de cara lavada e houve investimento dos governos locais na conquista de espaço público — o mesmo onde agora nos aventuramos com medo e desconfiança por causa da covid-19.

Sandra Marques Pereira, especialista em sociologia urbana, alerta que “nem todos querem viver na cidade, uma ideia que se tornou hegemónica sobretudo do ponto de vista mediático”. Desde os anos 1960, explica, “a maioria dos que vieram para a cidade estabeleceu-se directamente na periferia. Por razões de trade-off de acesso à propriedade, uma vez que centro é sobretudo arrendamento, mas também por factores relacionais, de redes sociais, de segurança ontológica”.

A investigadora do DINÂMIA’cet-ISCTE, Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território, lembra que “a reabilitação urbana faz-se com uma pequena minoria que já tem um modelo sociocultural e educativo diferente do dos pais”. O que aconteceu ao mercado imobiliário nacional, justifica, “é que entrou, muito de repente, no mercado global e nos circuitos turísticos massificados, levando a uma décalage entre os preços e os rendimentos dos autóctones, que não subiram”. Ninguém mediu “o efeito perverso” da cavalgada que até Março parecia imparável.

Por isso, fazem-se perguntas como estas: o que fazer dos centros urbanos passado o primeiro impacto da pandemia? Fecham-se ruas ao trânsito? Substituem-se os parques de estacionamento por praças? Democratiza-se a ciclovia a toda a área metropolitana? Retornamos ao campo para corrigir os erros do passado?

Não é possível dar respostas imediatas porque está tudo a acontecer em tempo real. O que há são propostas e “cadernos de encargo”.

Os especialistas entrevistados coincidem na ideia de que a construção de uma nova “economia” global está nas mãos do colectivo. A sociedade civil tem de ser mais exigente na definição da causa pública. E ao Estado cabe o papel de “nutrir um tecido social rico e participativo — nesse sentido, as cidades precisam de falta de eficiência”, resume o arquitecto André Tavares.

Oportunidade para “falhar melhor”

A consciência colectiva deste susto “lança um medo permanente e é, do ponto de vista político, um activo para reforçar a agenda no combate às alterações climáticas e à nossa pegada carbónica”, diz José Carlos Mota. O professor e investigador de Ciências Sociais, Políticas e de Território na Universidade de Aveiro apela à acção da sociedade civil e dá como exemplo as mais de 140 iniciativas solidárias registadas no projecto Mapear Futuros Colectivos (colaboração com Achata a Curva), criado em resposta à covid-19. Mota fala ainda do que viu acontecer no processo da revisão do Plano Director Municipal de Maia, que acompanhou de perto: mais de 1500 pessoas intervieram na discussão e tomada de decisões sobre acessibilidades, mobilidade e fragmentação urbana.

A pandemia “trouxe a colectivização de um problema e, nesta sincronização, pode estar a oportunidade para pensar e agir de maneira diferente”, diz Tavares.

O tempo de confinamento mostrou bolsas de humanidade e empreendedorismo em redes sociais de bairro, na ajuda aos mais idosos, na economia de proximidade, no teletrabalho que desafogou auto-estradas e cidades. O futuro pode ser assim? “Já sabíamos que seria possível. As dinâmicas nunca tiveram foi tal empurrão”, acredita o professor Mota. “É uma nova maneira de usar a cidade. O retrato de um país a mudar. Resta saber como vai continuar.”

O arquitecto José Mateus, presidente da Trienal de Arquitectura de Lisboa, vai no mesmo sentido: “O redesenho mais urgente é o dos hábitos, dos comportamentos, da organização do trabalho. A arquitectura e o planeamento urbano reflectem e desenham-se a partir dessa vida, que terá de ser, como já o está a ser, necessariamente diferente.”

Na Galeria de Arquitectura NOTE também se pensa no monotema pandemia. Reflexões: Arquitectura e Cidade em tempos de pandemia são entrevistas coordenadas por Bárbara Silva, a directora. A primeira disponível no site é com Nuno Grande. O arquitecto deixa dois possíveis modelos de futuro: um que defende a “apologia do comuns” para corrigir os “defeitos” da cidade pós-moderna — “é o cohousing”; outro, ‘orwelliano’, da cidade segregada e onde nos vamos fechar em casulos proteccionistas.

A mobilidade na agenda

Num manifesto em dez pontos, o URBinLAB, da Faculdade de Arquitectura de Lisboa, que reúne 12 investigadores, contribui para a reflexão. O texto defende, entre outras ideias, o aumento das áreas públicas e dos espaços de circulação pedonal; a revitalização do comércio de proximidade com reforço da produção agro-alimentar, utilizando espaços vazios; soluções arquitectónicas que privilegiem a varanda; a ampliação da rede de ciclovias para toda a área metropolitana, e a democratização do acesso a redes wifi em jardins e parques.

Pensar a área metropolitana — e não só o centro — é o grande desafio destes tempos pandémicos, sugere João Rafael Santos, coordenador do URBinLAB. Exemplifica com dois casos, um positivo e já em andamento, outro como hipótese de futuro. O primeiro é o projecto intermunicipal de Setúbal, Palmela e Sesimbra, cidades “articuladas para construir uma rede de ciclovias” que recuperou espaço a “estradas nacionais ou municipais, algumas com ligação aos interfaces dos transportes colectivos”. Já sobre o corredor da Estrada de Benfica, “que se estende para a Amadora e tem áreas habitacionais muito densas e com problemas de acessibilidade” — é quase impossível transitar de bicicleta se se quiser chegar ao centro — diz ser agora “a altura para lançar bases para o longo prazo”.

De Bogotá a Bolonha chegam exemplos de vias aproveitadas para uso de bicicleta, trotinete, patins, skate… tudo o que estanque a hemorragia poluidora do fluxo automóvel. “As cidades cresceram para responder a carências de habitação. Pressionadas pelo turismo, deslocaram ainda mais pessoas para a periferia. Há dificuldade em resolver estes movimentos pendulares que obrigam ao uso do carro”, diz André Camelo, arquitecto do atelier CREA, do Porto.

Em Portugal pedala-se pouco. Uma das metas para 2030 da Estratégia Nacional para a Mobilidade Activa é equilibrar a balança com as médias europeias: 0,5% dos portugueses usam a bicicleta nas suas deslocações diárias contra 7,5% na Europa.

Já em período de desconfinamento, a Câmara Municipal de Lisboa activou um grupo de trabalho para dar soluções rápidas que devolvam espaço aos cidadãos — pode passar pelo aumento das zonas de esplanada, mais ciclovias e pedonalização de ruas.

“Repensar o espaço público, a cidade densa como esperança e solução sustentável para o ambiente e para a humanidade está no centro do grande paradoxo actual”, enfatiza José Mateus.

Viver juntos, na cidade ou no campo

Alessandro Melis é o comissário do Pavilhão de Itália na Bienal de Arquitectura de Veneza. Enquanto fala com o Ípsilon chega a notícia de que a Bienal foi adiada para 2021. “É uma oportunidade para usarmos este tempo e arranjar novas formas de ‘vivermos juntos’”, que seria o tema da edição deste ano com curadoria do arquitecto libanês Hashim Sarkis. “Não me parece que o futuro venha a ser determinado por uma só tendência. Será ‘todos ligados online, ou todos a manter o distanciamento social, ou ainda todos a regressar a alguma normalidade’. O que nos espera é uma miríade de possibilidades. Quanto menos menosprezarmos qualquer uma delas, mais resilientes ficamos”.

Itália foi o primeiro país europeu a ser fortemente atingido pelo novo coronavírus e Melis culpa o paradigma da evolução urbana “em que as partes naturais e artificiais são tidas como componentes equivalentes, umas vezes em harmonia e outras em conflito. Pelo contrário, aprendemos com a biologia da evolução que a cidade, como qualquer outro produto da criatividade humana, tem de ser integrada como um subsistema da natureza”.

Para este italiano, investigador no departamento de Cidades Sustentáveis da Universidade de Portsmouth, na Grã-Bretanha, o futuro tem de ser “a cidade que preserve o metabolismo circular: que inclua as energias renováveis no seu abastecimento energético, a produção de alimentos, o fornecimento de água. A forma como a cidade se alimenta, por exemplo, é crucial. Tendemos a esquecer que cada pessoa a viver num apartamento é alimentada por aquilo que lhe chega de uns 0,2 hectares localizados em qualquer parte do globo. Essa distância tem um preço ecológico brutal”.

João Rafael Santos, do URBinLAB, acrescenta que estes tempos podem ser reveladores no aproveitamento de baldios, “mantidos como reserva ecológica mas expostos a interesses privados”, para áreas de produção agrícola e florestal. E recorda que um dos cenários propostos na exposição Agricultura e Arquitectura: Do Lado do Campo, co-produzida pelo CCB/Garagem Sul e pela Trienal de Arquitectura de Lisboa era, precisamente, “uma maior hibridez entre tecido urbano e rural”.

Quando, em Fevereiro, Rem Koolhaas inaugurou a exposição Countryside: The Future, levou um tractor e um canteiro de tomates-cereja da variedade Brioso para o Museu Guggenheim, em Nova Iorque, o estado mais afectado nos Estados Unidos pela covid-19. O arquitecto holandês que fez a Casa da Música, no Porto, e o arranha-céus que é sede da televisão estatal chinesa, em Pequim, forrou os seis níveis do museu com a história da vida no campo, desde Roma à crise ambiental actual. Diz Koolhaas no texto de apresentação da exposição: “Nas últimas décadas tenho vindo a reparar que enquanto grande parte da nossa energia e inteligência está focada no mundo urbano – influenciado pelo aquecimento global, o mercado, as tecnológicas americanas, as iniciativas africanas e europeias, a política chinesa, entre outros poderes –, o campo tem mudado incomensuravelmente. A história dessa transformação ainda não foi contada”. É simbólico que agora o faça na densa Manhattan, sobre a qual escreveu Nova Iorque Delirante, espécie de manifesto em defesa da cidade moderna. Nisto, já os tomateiros florescem sob as luzes artificiais e são podados todas as semanas — o fruto doado ao banco alimentar City Harvest.

A “cidade dos 15 minutos”

Uma grossa fatia da população mundial vive em áreas urbanas. São 55% e as projecções do último relatório da ONU é de que se chegue aos 68% em 2050. “Esbarramos hoje nos efeitos negativos daquilo que amamos. O grande desafio é como passamos da paixão pela alta densidade para pensar a baixa”, diz Figueira.

A covid-19 pede um acto de contrição do crescimento desenfreado que desequilibrou “ecossistemas intactos há centenas de anos”, defende Melis. “A pandemia é sintoma de uma crise ambiental global. Temos provas de que a poluição do ar é um veículo terrível na propagação do vírus. A tropicalização e desertificação do clima, o efeito das chamadas ‘ilhas de calor urbano’, geradas pelo desaparecimento de zonas verdes a favor do aumento do betão e do asfalto já trouxeram lições sobre propagação de doenças que antes não existiam”. Uma cidade mais resiliente conquista-se com flexibilidade. Num primeiro momento, criar infra-estruturas para atender a cuidados de saúde e prevenção da doença: “É na falta delas, mais do que na agressividade dos vírus, que se vêem as consequências mais devastadoras”. A longo prazo, continua, a resiliência tem de estar em tecidos urbanos adaptáveis a muitas hipóteses, seja na mobilidade, no uso do espaço público ou na produção alimentar.

Transformar a cidade pela forma como a usamos, defende José Carlos Mota. “Veja-se Paris, que está a pôr em acção a ‘cidade dos 15 minutos’. Este é o momento para redescobrir a cidade da proximidade”.

O franco-colombiano Carlos Moreno, director científico do departamento Território e Inovação da Sorbonne e precursor de estudos em smart cities — hoje chama-lhes living cities — é o mentor da “cidade dos 15 minutos”. Explica ao Ípsilon que assenta em três pilares: “crono-urbanismo, cronotopia e topofilia”, numa inspiração que vem do grego chronos e kairos.

Descodificando: o crono-urbanismo para “abreviar o tempo dilapidado em deslocações”; a crono-topia para “criar edifícios multifuncionais, uma escola que abra ao fim-de-semana para outras actividades; uma loja que seja usada para eventos culturais”); a topofilia para prolongar a experiência do confinamento, com “vizinhos a descobrirem-se de varanda para varanda, preocupação em cuidar do próximo, compras no comércio local, passeios no jardim ao lado de casa”. Troque-se o cronómetro por qualidade de vida. “Como acontece nos países nórdicos”, que estão no topo do Relatório Mundial de Felicidade da ONU.

A autarca Anne Hidalgo quer ver os parisienses felizes e adoptou a “cidade dos 15 minutos” na campanha para um segundo mandato. Já conseguiu mais 150 kms de ciclovias e, num futuro próximo, promete acabar com 60 mil lugares de estacionamento, fechar algumas ruas ao trânsito e impor 20km/h noutras.

Uma possibilidade é sermos optimistas. Afinal, pode haver ar, luz e espaço.

 

 

Photo by © Beata Zawrzel/NurPhoto via Getty Images – People practice social distancing sitting inside squares painted on a lawn by Vistula Boulevard. Krakow, Poland on 21st May, 2020. Squares that are always two meters away from each other were applied with chalk paint by Urban Greenery Board (ZZM) to help safty rest and relaxation in the greenery during coronavirus pandemic. 

 

Artigo de Maria Paula Barreiros no © Público

 

Maria Paula Barreiros | Editora de Planeamento

Vim para o PÚBLICO há dois anos integrar a equipa de editores do P2, que existiu até à reformulação do jornal, em Março de 2012. Agora co-edito a revista 2 com a Francisca Gorjão Henriques, projecto que considero ímpar na imprensa nacional – porque temos o formato que temos, porque queremos ter reportagens, entrevistas, análise nacional e internacional, perfis que vão ao fundo das histórias. Dizem que ao papel está destinado a morte lenta. Sou teimosa e respondo que queremos sempre ler mas, quando o fazemos, queremos fazê-lo bem. Seja em papel ou online. É essa convicção que me guia, como há 20 anos, quando cheguei ao Expresso para a redacção do Internacional (e depois a coordenação da Revista). Passei por duas licenciaturas, Direito e Comunicação Social, sem contudo as terminar.

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