Se fosse um museu, seria o do elogio ao trabalhador. No Parque Industrial de Pintancinhos, em Braga, o complexo industrial da DST, um dos maiores grupos empresariais portugueses, convive, dentro e fora de portas, com criações de grandes nomes da arte contemporânea portuguesa e internacional. Entre os escritórios e as fábricas das dezenas de empresas que compõem o grupo DST uma desenhada por Siza Vieira e outra por Souto de Moura – habitam obras de Ângela Ferreira, Fernanda Fragateiro, Pedro Cabrita Reis, José Pedro Croft e Vhils, entre outros. E, porque não há dois Pritzkers sem três, no campus da DST está a nascer o Living Lab, uma microcidade projetada por Norman Foster. As 30 obras em espaço público somam-se às milhares que, no interior, serpenteiam por entre os passos da rotina laboral. O gabinete do CEO, José Teixeira, não destoa do padrão e é nele que recebe O Expresso para uma conversa sobre a importância do “bom, do belo e o verdadeiro”, o abandono do coletivo e a necessidade de exercer a política, temas que desaguam na mais recente ambição do empresário, engenheiro e colecionador: abrir o primeiro museu de arte contemporânea de Braga.
José Teixeira começou a trabalhar aos 7 anos, foi servente de pedreiro na pequena empresa dos pais e hoje é presidente do grupo DST, poderio bracarense com atividades na engenharia e construção, ambiente, energias renováveis, telecomunicações e outras, empregando cerca de 3 mil pessoas. Por via dos serviços da empresa para a Companhia de Teatro de Braga (da qual a DST é hoje mecenas exclusivo), foi colecionando serigrafias e litografias oferecidas pelos cenógrafos –_ entre eles, Alberto Péssimo – que constituíram as primeiras pedras de uma coleção alimentada ao longo das últimas quatro décadas e que soma 1500 obras de 240 autores.
José Teixeira acredita que “sem a utilidade dos inúteis os escritores, os poetas, os pensadores –– o mundo avaria, fica sem mecânicos”. Dessa crença resultou a “‘Escola DST”, uma filosofia que perspetiva a formação humanística e artística de todos os seus trabalhadores. O Muzeu – Pensamento e Arte Contemporânea DST é o mais recente e ambicioso tentáculo da missão de “alargamento do espírito” da empresa terá até horário alargado, para “respeitar quem habita e trabalha no território” José Teixeira partilha com o Expresso que o projeto surgiu da intenção de devolver à cidade onde Domingos da Silva Teixeira nasceu. Entre a obra e a coleção de arte, a empresa-mãe aplicará no museu 40 milhões de euros. “Se, daqui a 50 anos, perguntarem ‘quem foram estes tipos?’, quero que pensem que fomos os que acreditavam na importância das artes, da cultura, da filosofia e das humanidades para o desenvolvimento da economia.”
INFLUENCIAR QUEM ELEGE
Helena Mendes Pereira considera que o museu será “a voz pública da DST” e uma que não se quer neutra. A exposição inaugural, “Sejamos Realistas, Exijamos o Impossível, uma referência aos protestos estudantis de maio de 1968, vai apresentar mais de 100 obras de 96 artistas, criações que dialogam com as temáticas da memória, do poder, da identidade, do trabalho, da resistência e da liberdade. Entre eles estão nomes tão variados como Pablo Picasso, Nan Goldin, RichardLong, Candida Hõfer, André Butzer, Sue Webster & Tim Noble, Caio Reisewitz, Jason Martin, Paula Rego, Helena Almeida, Pedro Cabrita Reis, Julião Sarmento, Alex Katz, Ana Vidigal, Angela Ferreira, Annie Leibovitz, Artur Lescher, Axel Hútte, Délio Jasse, Eduardo Batarda, Fernão Cruz, Francesco Clemente, Franz West, Gary Webb, Isabel Muñoz, Jean-Baptiste Huynh, João Penalva, José Bechara, Julian Opie, Manuel Rosa, Muntean & Rosenblum, Pedro Calapez, Peter Zimmermann, Rui Sanches e Susy Gómez. Opintor e escultor Anselm Kiefer terá uma sala dedicada às suas obras no Muzeu, como acontece com Richard Serrae Mark Rothko em Bilbauee Londres, respetivamente. Já três peças pertenciam à coleção DST, e O atelier que representa O pintor e escultor alemão trabalhou com Helena Mendes Pereira para a seleção das restantes que vão constituir o que será
O primeiro espaço dedicado exclusivamente ao artista, que prevê visita a Braga para assistir à montagem. Explica a curadora que esta exposição permanente ‘‘é uma espécie de mausoléu que reflete aquilo em que pensamos. E Kiefer é perfeito porque é uma obra que não é fácil; não se digere facilmente e pode dizer-se até que perturba, que é grotesco, e isso interessa-nos”.
O Muzeu tem a missão assumida de “influenciar quem elege nas escolhas de uma vida boa para todos” José Teixeira acredita que a arte não é neutra; “tem poder de transformação interrupção. Tudo pode ser outra coisa a partir da arte e nós queremos ser questionamento”, diz ao Expresso. Para José Teixeira, a arte tem uma função ignitora da união e do exercício da política, que considera estar afastada da sua origem grega como espaço de criação comunitária. “A arte é um tratado sobre a imaginação e o entendimento com os outros depende da capacidade de imaginar”
DA EXPOSIÇÃO A REFLEXÃO
Se a empresa parece um museu, o Muzeu pode parecer uma fábrica do futuro. Ao longo de quatro andares, estendem-se salas de exposição imensas que lembram a estética do chão de fábrica. Na convivência imprevista de materiais como o mármore e a chapa, os detalhes casam o sublime da arte com o comum industrial. O edifício e o mobiliário foram desenhados por José Carvalho Araújo, cujo atelier cultiva uma relação de longa data com a cidade. O arquiteto bracarense acredita que “a primeira peça de arte é a própria arquitetura e a que fica para sempre”, o que justifica a linguagem enxuta do espaço como tela harmonizadora de todas as obras que por ali passarão. Um outro valor do espaço é a disponibilidade, que Carvalho Araújo liga à personalidade do mecenas e que “faz deste museu um museu criativo, com cumplicidade e aberto à cidade, e não um espaço estático ou cristalizado”.
O Muzeu ressuscita O Palacete Vilhena Coutinho, um antigo tribunal com um passado cultural ligado intimamente à Companhia de Teatro de Braga, entre a Praça do Município, a escassos metros da Câmara Municipal de Braga, e a Praça Conde de Agrolongo. Segundo o arquiteto, o Muzeu vai funcionar como uma terceira praça, “‘um espaço de ligação onde a cultura acontece”. Na futura entrada está a mais longa faixa de muralha da cidade, que começou a ser construída no século XIV, bem como um poço medieval. A fachada principal conta com uma intervenção permanente de José Pedro Croft em bronze pintado nos vãos e portas moldadas a partir dos originais de madeira da fachada concebida por Carlos Amarante. O bronze das portas e a cor das telhas são referências à Catedral de Santa Maria del Fiore, em Florença, e um piscar de olho ao mecenato cultural dos Médici, mais uma vez estabelecendo comparação entre O edifício e a personalidade do engenheiro colecionador.
Os 3 mil metros quadrados de espaço expositivo desenrolam sem torno de uma grande escada de betão que se faz infinita, subindo, no quinto andar, em direção ao céu. Neste andar, desdobra -se um auditório de 150 lugares que se batizou de Assembleia. “ê o elemento que cresce acima do edifício e que faz o Muzeu: O espaço reflexivo além do espaço expositivo”, conclui José Teixeira. No último andar, as grandes janelas oferecem uma vista da cidade de Braga.
A programação recheada para o ciclo inaugural do Muzeu, intitulada “Abrir Abril’, integra parcerias com várias entidades e expressões artísticas, entre elas um ciclo de jazz com o Hot Clube de Portugal, uma série de conferências celebrativas dos 50 anos da Constituição Portuguesa, em colaboração com a Ephemera Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira, um Clube da Escuta organizado pela portuense Matéria Prima, workshops de filosofia para crianças e ainda um ciclo de dança e performance.
©Expresso/dstgroup
Texto: Inês Loureiro Pinto
Fotografias: ©Fernando Veludo/Nfactos ©muzeu.pac





