Centro de Alto Rendimento de Remo do Pocinho

Categorias: Museus

Concorrentemente o conjunto de opções assumidas / adotadas já referidas permitiu ainda conjugar de forma mais articulada princípios de gestão passiva da energia do edifício. Na zona de quartos, com períodos de maior permanência e com atividades físicas menos intensas, reduz-se a “pele” exposta ao exterior, encosta-se, semienterra-se no terreno (tal como os esquimós fazem com os igloos). As coberturas verdes reforçam o isolamento, material e simbólico. Complementando esta procura da energia solar passiva, os quartos expõem claraboias a sul, procurando o sol, uma vez que a vertente de implantação de todo o edificado é virada a norte. As paredes interiores dos quartos em betão aparente reforçam simultaneamente o sentido de “terra”, de “lar”, de proteção, desta componente do programa; e a otimização das possibilidades de armazenamento da energia solar térmica captada através das claraboias. Que no muito calor do Verão duriense se sombreiam pelo exterior.

Como bónus, das camas vêem-se as estrelas. E em conjugação com as necessárias janelas, e desejada iluminação natural ao longo dos corredores de acesso aos quartos, permite-se que, do exterior, os socalcos de xisto, e as suas respetivas coberturas “flutuem”, rejeitando, de forma consciente qualquer mimetismo direto. Mesmo a irregularidade da planta nesta zona de quartos, mais do que contribuir para uma qualquer “ironia” do mimetismo, está ao serviço da articulação entre uma componente sistematizada e repetitiva do programa (as células dos quartos), e a necessidade de uma grande proximidade destes com zonas diversas. Estas zonas destinam-se quer ao apoio mais direto da vivência dos quartos (pequenas copas, pequenas zonas de convívio, lavandarias de uso individual,…) quer a outras, variadas, exigências programáticas (áreas técnicas, zonas de equipamentos, de arrumos, …). Desempenha ainda, a referida irregularidade da planta, um papel no jogo entre repetição e identidade, fragmentando o longo espaço e visualidade de longos corredores indiferenciados, pontuando-o com limites de perspetiva e espaços únicos e irrepetíveis ao longo do seu desenvolvimento.
No entanto, e mesmo face ao exposto, esta articulação de condições e opções de projeto não deixa de permitir que a componente quantitativamente mais significativa do programa se possa “diluir” no terreno/paisagem; e também que a desejada futura expansão do número de quartos do Centro (representadas a cinza mais claro nas peças gráficas que acompanham o texto) se possa vir a processar sem grandes perturbações das lógicas gerais do projeto (até porque este foi já desenvolvido tendo em conta a perspetiva de possível ocupação máxima do terreno).
Acrescente-se ainda, no espaço de referência a esta componente do programa, que apesar da exiguidade da área de cada um dos quartos, estes foram desenvolvidos para que todos os que estão construídos à cota do corredor de acesso permitam a sua ocupação por atletas em cadeira de rodas. Apenas retirando e colocando os respetivos apoios em cada um dos wc’s desses quartos, permite-se que os atletas com condicionantes físicas possam escolher os quartos onde querem ficar, que possam ficar integrados nas mesmas áreas que o resto das suas equipas, sem os remeter para uns quartos específicos, nuns cantos convenientes, nuns “quartos para pessoas com deficiência”.

Assim definida a estruturação e modulação do terreno, do sítio e da componente programática de “alojamento”, as outras duas grandes áreas do programa (Zona Social – refeitório, bar, sala de convívio, biblioteca, auditório… – e Zona de Treino – Ginásio, Piscina de apoio, Balneários, Gabinetes médicos e de treinadores…), de funções mais dinâmicas, mais “produtivas”, impõem-se na paisagem desenvolvendo-se ao longo da estabilização de algumas cotas como grandes volumes brancos, formalmente diversos e volumetricamente complexos.

Assumindo uma linguagem e uma expressividade próprias, surgindo como as componentes de maior visibilidade, manifestam o sentido de projecto e transformação, contrapondo-se à “timidez” dos socalcos. Desenvolvidas em conjunto com a investigação sobre as características e as necessidades espaciais de cada uma das componentes programáticas, procuram encontrar a especificidade da relação destas com o lugar.
As zonas coletivas de permanência, descanso e relaxamento conquistam as cotas altas e contemplam a paisagem. As de treino e esforço, voltam-lhe as costas, na procura de correspondência a lógicas de esforço e concentração, que os atletas de alto desempenho conhecerão como poucos.
Desenvolvem também, em conjunto com estas especificidades, diferentes relações com os princípios enunciados, em relações de causa e efeito interdependentes. A complexidade formal articula o desenvolvimento de uma imagem específica com, por exemplo, a liberdade de controlar a exposição solar dos envidraçados entre o Verão e o Inverno, ou o Nascente e o Poente. Ou seja, a aparente aleatoriedade do devir das formas, procura garantir de uma forma passiva uma exposição direta dos envidraçados ao sol de Inverno e o seu sombreamento face ao agoniante calor do Verão. Igualmente se procura que estas articulações sejam consequentes com as particularidades do sistema construtivo desenvolvido, elemento indissociável das questões de linguagem que se colocam em jogo. Com este sistema construtivo procura-se também; entre as fachadas e coberturas ventiladas, o duplo isolamento térmico, e um sistema de “construção a seco”; equacionar as questões do desenvolvimento sustentável. Permitindo, por exemplo, no final do ciclo de vida dos materiais, uma desmontagem e recolha seletiva para reciclagem.
Desafio aliciante e estimulante de Arquitectura, o Centro foi-o também da investigação das formas e dos processos de integração da especificidade de “novos” temas, como o da Acessibilidade e o da Sustentabilidade, no que, indefinidamente, procuramos definir como… Arquitectura. Só. Sem rótulos. Sem acrescentar adjetivos que apenas a reduzem. Nem “ambiental”, nem “verde”, nem “acessível”, nem “inclusiva”, nem “sustentável. A verdadeira Arquitetura, para o ser, é tudo isto, e muito mais.

Quanto a este projeto, para além de terminar a obra, apenas falta aquilo pelo qual, penso eu, os arquitetos efetivamente trabalham. Os utilizadores da sua obra.

Álvaro Fernandes Andrade,
arquiteto

P.S. – As pequenas pequenas portas que se vêm ao longo do corredor de ligação entre as 3 Zonas do CAR, não são qualquer evocação reminiscente de uma qualquer outra região do país que não a do Nordeste transmontano. Tão somente são simultaneamente focos de luz / remate visual para os corredores dos quartos e “portas de elevador”. Um elevador “diagonal”, um pequeno funicular, residencial, que por razões orçamentais ainda não foi possível instalar (ver exemplos links)

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FICHA TÉCNICA

Projeto

Centro de Alto Rendimento de Remo do Pocinho

 

Localização

Pocinho – Vila Nova Foz Côa

 

Arquitetura

SpacialAR_TE

 

Arquiteto Responsável

Álvaro Fernandes Andrade

 

Ano

2014

 

Fotografias

João Morgado

 

FOTOGRAFADO POR
PDFS
Galeria
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